quinta-feira, 11 de abril de 2024

Você não é branco você é pardo


“O presidente negro”, único romance de Monteiro Lobato, ficou muitos anos esquecido, por vários motivos, entre eles não macular a imagem do mais importante autor de histórias infantis do país, infelizmente,não conheço outro(a) que o tenha superado 


Qual a mácula do “Presidente Negro”? É um romance tese, defende uma ideia ou causa, que causa? A eugenia, não apenas o ódio pelos negros , o que já seria o suficiente para macular a imagem de Lobato, mas sobretudo o ódio e pavor pela misturas de raças. Ele acreditava na existência de raças.


No romance Lobato mostra Os Estados Unidos como exemplo do que não deveria acontecer aqui, os negros e brancos não racistas se unem e elegem um presidente negro. A solução para impedir o avanço dos negros e , como se dizia na época, mestiços, era esterelizar todos.Os nazistas fizeram isso com os negros da Alemanha, esterelizaram crianças negras e impediriam casamentos interraciais.


Escrevi “Você não é branco, você é pardo” como resposta não só ao romance de Monteiro Lobato, mas aos racistas e eugenistas de hoje. 


Entendo que pardos não claros o suficiente para se passarem por brancos, ou não escuros o suficiente para serem chamados de pretos vivem no limbo racial, e catalisam todo desprezo, ódio racial e pavor em uma sociedade cada vez mais maniqueísta.


Esqueçam a ideia de que pardos e pretos são negros, na pratica, a vida de quem não se enquadra em padrões é angustiante. 


Pardos são sempre vistos com desconfiança, a cor da pele é vista como uma senha para algo ruim. “ Cor de mendigo”, “branco encardido”, “ cor de formiga” , são algumas infâmias que os pardos ouvem.


Eugenistas são incapazes de compreender que o que compromete o desenvolvimento do país são as desigualdade sociais, concentração de renda, o Estado a serviço do setor privado, privilégios triturando direitos, e não a raça (mesmo que seja apenas uma criação, uma ficção) ou  a mistura delas.


 Os “encardidos”  é um grupo odiado por ser a negação do ideal de raça pura. No universo racista ou se é preto ou se é branco, afinal, "cor de mendigo", como a minha, sempre foi vista como degeneração biológica.

Ediney Santana, autor do romance "Você não é branco você é pardo"

quarta-feira, 17 de maio de 2023

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Entrevista com o poeta Ediney Santana


Entrevista com o poeta Ediney Santana

(Lorena) - Ediney quando você comeu a escrever?
Ediney Santana e Lorena Soares
(E
diney) - Exatamente não lembro quando me despertou o gosto pela literatura e escrita, mas certamente as aulas de Comunicação e Expressão entre a 5ª e 8ª séries do primeiro grau (chamavam assim as aulas de Língua Portuguesa) da professora Norma no colégio Senador Pedro Lago foram decisivas pelo meu encantamento a palavra e escrita. A professora Norma foi à pessoa mais importante na minha formação intelectual.

(Lorena)- Como é sua relação com a Língua Portuguesa, gramática e literatura?
(Ediney)- Minha relação é mais com a literatura que com a gramática, o meu encanto é com a semântica da palavra.
(Lorena)- Quais são os poetas portugueses, brasileiros que você mais se identifica?
(Ediney)- São fases literárias, houve um período que foi muito Augusto dos Anjos, um dos maiores poetas do mundo, um cara que só publicou um livro e está aí até hoje. Outra fase foi Castro Alves pela militância social, outros momentos Manuel Bandeira pela doçura e leveza em falar das nossas misérias cotidianas, pessoais e ultimamente muitos poetas contemporâneos, autores de blogs.
(Lorena)- Como você entende poesia e poema? Ha diferenças?
(Ediney) - Poema seria a forma, poesia o significado ou signo verbal, a semântica e imagens da palavra. Mas podemos encontrar poesias em textos em prosa e não encontrar poesia alguma em um livro de poemas, às vezes você ler um poema e é só um amontoado de palavras sem signo poético algum. A poesia em si transcende a forma física do papel, vai muito além...
(Lorena)- No dia 14 de março é o dia da poesia em homenagem a Castro Alves, o que você acha dessa homenagem?
(Ediney)- Mais que justa, Castro Alves foi poeta da intensidade verbal, militou com paixão e verdade na poesia, em um período conturbado da nossa história, seus versos oscilavam entre o lirismo e a militância social, uma voz poética muito forte, verdadeira. Por ele ter nascido no dia 14 de março se fez essa homenagem fazendo desta data o dia nacional da poesia, sua poesia é ainda muito simbólica, seus versos sociais fazem eco nestes nossos dias, já que a escravidão mudou de forma, hoje se escraviza de outras maneiras, a principal dela é negar a história, nosso tempo é o tempo em que se fortalece a ideia da não memória, da não história, cultiva-se apenas o moribundo presente que não dura 24h horas, ha a repetição do que em verdade não existe porque é feito para o compartilhamento vazio de emoções vazias.
Eu particularmente gosto mais da lira de Castro Alves, a poesia do “Espumas Flutuantes”, uma poesia sensível, mas sua poesia  social encontra em mim um profundo admirador, ele foi um cara extremamente corajoso, jogou na cara das elites escravocratas do seu tempo as mazelas e servidão de uma época  triste e desesperadora.
(Lorena)- Qual a poesia que você mais gosta do Castro Alves?
(Ediney)- Gosto muito de um poema chamado “Adormecida”:

Uma noite, eu me lembro... Ela dormia 

Numa rede encostada molemente... 

Quase aberto o roupão... solto o cabelo 
E o pé descalço do tapete rente.

'Stava aberta a janela. Um cheiro agreste 

Exalavam as silvas da campina... 

E ao longe, num pedaço do horizonte, 
Via-se a noite plácida e divina.

De um jasmineiro os galhos encurvados, 

Indiscretos entravam pela sala, 

E de leve oscilando ao tom das auras, 
Iam na face trêmulos — beijá-la.

Era um quadro celeste!... A cada afago 

Mesmo em sonhos a moça estremecia... 

Quando ela serenava... a flor beijava-a... 
Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia...

Dir-se-ia que naquele doce instante 

Brincavam duas cândidas crianças... 

A brisa, que agitava as folhas verdes, 
Fazia-lhe ondear as negras tranças!

E o ramo ora chegava ora afastava-se... 

Mas quando a via despeitada a meio, 

P'ra não zangá-la... sacudia alegre 
Uma chuva de pétalas no seio...

Eu, fitando esta cena, repetia 

Naquela noite lânguida e sentida: 

"Ó flor! — tu és a virgem das campinas! 
                                                            "Virgem! — tu és a flor da minha vida!..."



Linda né? Acho bela, o olhar sobre a mulher dormindo, ele se imaginando entre seus seios, criando imagens sensuais e sedutoras, escreve sensações que aquela mulher provoca nele, tudo apenas por causa de um roupão sutilmente aberto e ele se desmancha em prazer kkk. O “Livro e a América” também é um poema que me diz muito, para quem milita na educação o poeta fala em levar livro para o povo e fazer o povo pensar:


“Oh! Bendito o que semeia 
Livros... livros à mão cheia... 
E manda o povo pensar! 
O livro caindo n'alma 
É germe — que faz a palma, 
É chuva — que faz o mar”.






(Lorena)- Como você analisa a influência da internet na literatura e na vida das pessoas?

(Ediney)- A internet é uma grande biblioteca áudio visual, o que percebo que se tem muita informação, mas sem gerar conhecimento, para a literatura, acho que a internet é responsável pela renovação radical da nossa letras, com os livros digitais e blogs, ficou mais fácil e democrático editar livros e não se tem mais o peso coorporativo das editoras dizendo o que se deve ou não ser editado ou lido . A grande questão é como vamos sair de uma geração de informação para uma geração de conhecimento, somos a geração da ressaca, sem paixões e feliz em nos repetirmos, mesmo com todas as ferramentas que nos possibilitam uma tomada de consciência mais profunda infelizmente apostamos na falsa civilização da ausência de ideais no sentido radical da palavra, esse é o tempo do “tanto faz, sempre foi assim, sou amigo de todos e todos são lindos”, tempo do tomar café enquanto rimos do vizinho que foi decapitado. Tudo isso se reflete nas artes que às vezes é patológica e demente como esse tempo de ressaca idealista.
A internet transformada em ferramenta apenas de pesquisa tem formado batalhões de pessoas emburricadas, treinadas na arte de copiar e arrotar verdades caducas para um mundo que pede posicionamento crítico e objetivo. Mas ao mesmo tempo ela aponta caminhos, a internet enquanto território quase livre tem mais sentido democrático que o Estado brasileiro ainda imerso em parasitaríssimo politico e artificial incompetência admirativa.

(Lorena)- Muitas letras de música tem forte teor poético, como você analisa hoje esse encontro entre música e poética?

(Ediney)- A música se renova com muita rapidez, mas com pouca qualidade. A música é muito banalizada, nestes nossos dias vejo muitas letras de músicas que são apenas Onomatopeias bizarras, desprovidas de sentido e talvez o único sentido seja fazer coro aos corações vazios e suas poucas crenças no lúdico. Se vamos a uma festa e lá está tocando essas bestialidades sonoras não vejo problema, mas quando isso passa a ser uma verdade nas nossas vidas e só se consegue pensar neste pequeno espaço de sub- criatividade, isso nos revela um sintoma pavoroso “cultural” de degeneração intelectual.
O riso e o ócio aqui foram tomados de assalto por uma poderosa máquina política e cultural para alienar e manter na ignorância corações incautos, tudo isso ainda tem uma vigorosa contribuição de um sistema público de educação falido que só não desmorona de vez por causa de alguns poucos e bons professores e professoras que não se intimidam diante esse horror todo. A Bahia é uma grande produtora de porcarias sonoras, o que é uma pena.
Mas se procurarmos com calma sempre há coisas boas, bons artistas. Eu particularmente comecei a gostar poesia primeiro pelas letras de músicas, antes dos livros, chegou até mim os discos.
(Lorena)- Que musicais, que artistas?

(Ediney)- Eu sempre gostei mais de letras de músicas que das músicas. Então, por exemplo, quando era criança gostava muito das músicas do Sérgio Reis, ele cantava letras suáveis, bucólicas que me lembravam o sertão ou sou sertanejo e as canções do Sérgio pareciam amigas, os primeiros discos de Amado Batista e suas canções de amor rasgado, sempre gostei de canções com esse teor saudosista, na adolescência me encantei com Edson Gomes e suas canções com forte teor social e político, antes de Marx quem me disse algo sobre as relações de poder e nós mortais foi Edson Gomes, o primeiro artista brasileiro que me influenciou, na adolescência eu queria ser como ele e dizer aquelas coisas todas, depois veio o Legião Urbana, Renato Russo me deu doses generosas de lirismo, letras bem construídas, muito literárias, são artistas eternos pela qualidade do que fizeram, bons exemplos de que se pode fazer sucesso sem ser medíocre. Belchior, Zé Ramalho, Ângela Rôrô são pessoas presentes sempre na minha vida e tantos outros.

(Lorena)- O que você acha de Gregório de Mattos?

(Ediney) - Um dos grandes poetas deste país, um cara extremamente talentoso, soube como viver plenamente todos personagens da sua inquieta personalidade, seus conflitos religiosos, sua poesia social – satírica que não poupou ninguém, a acidez poética em tratar os poderosos e os fracos da época, uma alma complexa e um talento incrível.

(Lorena) Como você sente a poesia de Cecilia Meireles?


(Ediney)- Uma poesia intimista, lúdica, delicada, voltada para questões mais introspectiva, a busca pelo entendimento das emoções com o mundo opressor e geralmente excludente. Eu gosto muito de um livro dela chamado “Cânticos”, é um livro muito místico que traz uma poesia suave e quase religiosa, “ Cânticos” é uma delicada mensagem de esperança, uma alternativa poética ao caos emocional que nos perdemos, caos que nos fez pouco a pouco devoramos o amor e o bem maior que temos que é nossa própria condição humana.


(Lorena)- Relembrando a questão da música, ha também o Vinicius de Morais...


(Ediney) - Ele foi um cara diferente, multimídia, foi poeta, letrista, cantor, embaixador, foi demitido do cargo de embaixador acusado de não ter um perfil para o cargo, recentemente soube que foi simbolicamente readmitido pelo Itamaraty, foi um homem aberto e profundamente ligado ao seu tempo, um carioca quase baiano, se encantou e cantou o candomblé, um homem de muitos amores e cantou todos, biriteiro assumido e um coração lírico apaixonado pela palavra, foi uma amente da palavra, homem da noite e das mulheres como da palavra e da poesia.


(Lorena)- Muito obrigado pela entrevista!


(Ediney)- Obrigado você... Amemos e nos embriaguemos como Vinicius de Moraes, sejamos quando necessário, céticos como Augusto dos Anjos, suaves como Cecilia Meireles, corajosos como Gregório de Mattos, irônicos como Manuel Bandeira e sobre tudo esperançosos como Castro Alves.


* Leia aqui outros trechos da entrevista:


http://www.ufrb.edu.br/reverso/2013/03/13/dia-nacional-da-poesia-e-comemorado-nesta-quinta/

htpp://cartasmentirosas.blogspot.com





sábado, 16 de fevereiro de 2019

Um lugar de muitos lugares

No youtube, outra mídia social bastante utilizada pelos moradores de Santo Amaro, pudemos reencontrar alguns dos blogueiros mencionados acima. Deles recuperaremos somente Ediney Santana. 
Os vídeos de Ediney Santana constituem a amostra dessa seção por ilustrarem uma relação específica (que caracterizaremos mais adiante) com o lugar Santo Amaro. Nesses vídeos, o autor deixara claro seu vínculo afetivo com a cidade. Citaremos três. No primeiro, “Santo Amaro: em busca da Purificação”197, Ediney Santana recitou uma poesia de sua autoria enquanto andava pela praça da Purificação, descrevendo um caminho (metáfora da busca do título?) que se finalizava no encontro com a igreja da Purificação. No segundo vídeo – “Rio de águas mortas”198 –, o autor desenvolveu uma reflexão e um depoimento sobre o rio Subaé e sua poluição. Seu mote surgiu, segundo Santana (no próprio vídeo), de um passeio banal com sua filha, as margens do rio. Santana construíra, a partir de sua experiência cotidiana no lugar (e, obviamente, de seu conhecimento formal e de suas intenções enquanto cidadão), uma fala ambientalista de objetivo moralizante. Usando as frases de sua filha e de outra criança, mais cenas do rio poluído e sujo, ele pôs no vídeo a população moradora da cidade como participante do seu processo de deterioração.
197 Publicado em 2012. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=ZaeyAOUXIaI>. Acesso em: agosto de 2015. 
198 Publicado em 2012. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=FchgPEw7zi0>. Acesso em: agosto de 2015. 
199 Publicado em 2013. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=EMK8jtTtI9w>. Acesso em: agosto de 2015. 
200 Música composta por Flávio Venturini (no álbum “Luz viva”, de 2007). O artista é presença assídua entre as apresentações de palco nas festas de Santo Amaro. 
No último vídeo, “Memória afetiva de Santo Amaro da Purificação”199, da amostra que elegemos, Santana compôs uma apresentação de slides com fotos antigas da cidade e dos seus moradores. Na trilha sonora, o autor inseriu, introduriamente no vídeo, a música “Céu de Santo Amaro”200 interpretada por Maria Betânia. Esse vídeo, especialmente, teve milhares de visualizações (quase 4.000), mas nenhum comentário (como os outros dois exemplos). Quais os objetivos de quem assiste esse vídeo? Foram moradores de Santo Amaro aqueles que o assistiram? Assistiram com o fim de alimentar algum tipo de identificação com a cidade? Sem responder às perguntas diretamente, mas Pensando sobre como são construídos os estereótipos, pensamos que Ediney Santana, inevitavelmente, fez sua contribuição para a virtualização do lugar Santo Amaro.
Enfim, de um modo geral, Santana produzira uma fala bucólica (e, em outro grau de intensidade, nostálgica) do lugar Santo Amaro, servindo-se da própria paisagem (pretérita e/ou atual) da cidade para tanto. Mais um caso em que surpreendemos uma produção da cidade enquanto lugar fenomenológico, construído relacionalmente através da experiência dos indivíduos que o vivem. Apesar desse recorte teórico não ser um eixo analítico nesse trabalho, é impossível não nos referirmos a ele quando perspectivas mais individuais do lugar se colocam, ainda mais quando essas perspectivas são publicizadas através da internet, tornando-se parte de um processo de construção discursiva e virtual do lugar em questão. Sem dúvida, essa construção não ficará encapsulada no mundo virtual. Os indivíduos que as assistem, e as modificam (não esqueçamos das funções pós-massivas das mídias sociais) passiva ou ativamente, trazem-nas consigo ressignificadas. O lugar virtualizado, enquanto discurso, apropriado e ressignificado pelo outro, se liga novamente ao mundo sensível e dialoga com ele como mediação através das relações, contribuindo para a estruturação de um lugar sensível, que não é seu espelho, mas um desenvolvimento. O lugar fenomenológico, subjetivista, torna-se parte de outro lugar, rizomático, pós-estruturalista. Para se sustentar e tornar-se vivo e cotidiano, ele se territorializa através de inumeráveis relações. O lugar torna-se infinito e repercute em outras categorias analíticas, em outros planos da existência. 
As estruturas físicas que constituem a redes sociotécnicas que servem à comunicação e ao transporte da informação participam da constituição de um lugar virtualizado e abstrato, um discurso ideológico sempre em construção que se capilariza e reverbera em outros lugares. Outras pessoas, outros sujeitos, portanto, serão afetados pelo lugar Santo Amaro virtualizado e vice-versa. Ao mesmo tempo, os próprios sujeitos do lugar virtualizado também serão afetados. As consequências desse processo de afetação mútua e indiscriminada deverão ser muitas, mas entre elas, falaremos sobre configurações e reconfigurações do espaço físico e social. Ocorrerão deslocamentos de pessoas e objetos e, ao mesmo tempo, surgirão novas geometrias de poder. É sobre essas geometrias de poder, configuradas a partir de cada dimensão do fazer espacializado no cotidiano de Santo Amaro, que discutiremos ao longo das seções seguintes . 
AUTOR : SHANTI NITYA MARENGO
SANTO AMARO-BA:
Extraído de : UM LUGAR DE MUITOS LUGARES
( TESE DE DOUTORADO)
Salvador
2016/UFBA
FONTE:
https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ri/20640/1/TESE.pdf


sábado, 2 de junho de 2018

Livros

Ediney Santana- The lonely Shadow

Ediney Santana- Palavra ( mal) dita

Ediney Santana- Anfetaminas e arco -íris 

Ediney Santana- Os deuses não são socialistas

Ediney Santana - Dias delicados 

sábado, 26 de agosto de 2017

A poética de Ediney Santana

Ediney Santana e os amigos prof. Carlos e Zorildo

Para os famosos, quem escreve é Caetano ou Betânia, para os quase famosos, Jorge Portugal e Roberto Mendes, para os novos "Ediney Santana”. Conheci a poética de Ediney por intermédio de Herculano Neto, com o livro Sob Prescrição,fiquei encantada com a nova poesia da minha terra,resolvi trabalhar com os alunos do ensino médio o livro,os alunos amaram a palavra de Ediney Santana,poderia até dizer que os alunos devoraram o que ele escreveu no livro,lembro que todos fizeram cópias dos textos dele.Ediney é assim,uma capacidade imensa de envolver as pessoas,ninguém consegue passar por ele e ficar imune a sua extrema inteligência ou as polêmicas que ele vez ou outra está envolvido.Antes de ser amiga dele,conhecia o que ele escrevia,suas musicas para a Flor Marginal,seus livros(falta ler uns dois)e principalmente sua fama de ser um excelente professor,minhas antigas alunas do normal,quando me viam na rua sempre diziam:-Tem um professor que é sua versão masculina dando aula a gente!Causou-me estranhamento saber que minha versão masculina para as alunas,era um habitue do chafariz da praça,que a cidade rotulava como roqueiro e todos os estereótipos que carregam a galera do rock,eu apenas via nele um belo cabelo para uma pessoa tão cafona.Hoje posso afirmar que Ediney Santana é uma pessoa que meus alunos enlaçaram no meu destino,de tanto ser lido per eles resolvi convidá-lo para participar de uma mesa redonda no Teodoro Sampaio,nesse tempo ele era uma das pessoas mais poderosas na educação da minha cidade,só ele compareceu dentre tantos convidados,foi a única mesa redonda que envolveu os alunos na semana da cultura.Nascido em Mundo Novo ,na Chapada Diamantina ele gosta de se intitular “homem do sertão”, político partidário,tem paixão pela sua família,pela sua infância,seus textos são o retrato da sua alma,sou seguidora dos seus blogs:cartas mentirosas e a vida reinventada que ele dá show nos textos de realismo fantástico,escreve para o jornal local O trombone ,não li (ainda)o Evangelho do mal,mas tudo nele revela a preocupação com o ser humano,até hoje é um adolescente rebelde leia "Os Deuses não são socialistas”,excelente compositor,na Flor Marginal cantava como Renato Russo,mas escrevia bem melhor do que ele, os textos mais antigos por mais que ele tente passar a ideia de monocromia,revela uma explosão de cores( Anfetaminas e arco íris)é meio tiete de alguns famosos,principalmente os que já morreram.Vive flertando com a tristeza,entretanto não conheço ninguém com tantos projetos e sonhos,todos devidamente pensados para agradar aos fracos e oprimidos. Ediney Santana é uma pessoa que ainda não consigo denominar em que tempo está,talvez um iluminista,como Santo Agostinho ou uma pessoa ideal para o futuro,um ser sustentável!Se ele não fosse essa força em criatividade e talento, apenas por ser um coração solidário e valente que é,já me sentiria orgulhosa em ter a presença dele nessa minha breve vida,neste mundo tão infestado de pessoas individualistas e peçonhentas!
De: Amapagu Cazumba
Fonte: http://amapagupatsycazumba.blogspot.com.br/2009/07/meu-amigo-e-poeta-ediney-santana.html

terça-feira, 19 de abril de 2016

A Menina e o Poeta

Este livro foi escrito em homenagem a todas as crianças do povoado da Barra de Mundo Novo-BA. Que todas as crianças de Mundo Novo, de todos outros povoados e distritos da cidade sintam-se homenageadas por esta história que se passa na Barra.
Pelas ladeiras, ruas e casinhas simples um grupo de crianças incentivadas por uma professora muito especial resolvem transformar o pequeno povoado no lugar do país em que mais se ler poesia. Vão viver uma incrível aventura pela literatura e encontrar um inimigo muito poderoso, mas não vão desistir de fazerem do lugar em que vivem, um lugar único, um pequeno Mundo Novo.  
Nasci em Mundo Novo, vivi meu primeiro ano de idade na Barra, crescei longe, me tornei escritor, este livrinho é a maneira encontrada de desejar que todas as crianças sejam felizes, através da educação possam viver em um mundo possível de amor, oportunidades e realizações pessoais e coletivas.
Ediney Santana
Brasília, 04/04/2016 







terça-feira, 15 de março de 2016

Entrevista para o Cultura Alternativa

Fale um pouco da sua vida, onde nasceu, etc. Lembre-se que o leitor na internet gosta de concisão. Ser conciso é fundamental.

R- Nasci em Mundo Novo, fica na Chapada Dimantina-BA. Mundo Novo é uma pequena cidade erguida em um vale incrivelmente verde, falo incrivelmente verde, porque no semiárido nordestino predomina paisagens secas, caatinga, mas passei a vida toda nas margens da Baía de Todos os Santos, em Santo Amaro, mítica cidade baiana. Mudei aos 40 anos para Brasília, nunca tinha ido tão longe de casa, mesmo vivendo perto de Salvador sou um coração do interior. Brasília é uma cidade que predominantemente corações se afirmam pelo ter, a vida toda me afirmei pelo ser, mas ter e ser quando em conflito o ser vai sempre levar a pior. Sou formado em Letras Vernáculas, especialista em produção textual, no entanto o magistério hoje é pesar e cansaço.


Agora um breve currículo literário?

R-Meu primeiro livro foi publicado em 2002 pela Universidade Estadual de Feira de Santana, desde então publiquei dez  livros , sendo que um romance , a biografia de minha mãe, um livro sobre política e uma fábula infantil. Os outros foram de poesias.



Você acha que o Brasil respeita o escritor?


R- Não sei em outros países, não conheço outros lugares, só a Bahia e Brasília, mas o que posso dizer é que no Brasil se reconhece a fama e não necessariamente o que se é. Compra-se produtos abençoados pelo capitalismo, até mesmo bravos lutadores contra o capitalismo só valorizam o que tiver gerando lucro, o que for vitrine, sendo assim, não tenho valor algum para uma sociedade capitalista, não é o conteúdo do que escrevo que entra na questão, o que importa é se tenho algum sucesso, se as luzes estão sobre mim, em caso de sucesso vão querer tirar uma foto ao meu lado, vão pedir autógrafo, mesmo que nem leiam nada, mesmo que publique livros de páginas em branco. Simples assim...Sucesso independe de talento, por muitos motivos alguém é escolhido e de repende vira referência de uma geração, claro,  os que são apenas fama com o tempo desaparecem, mas muita gente que tinha algo de relevante também desapareceu por aí na poeira do tempo.


Dê ideias de como a sua literatura e a nacional poderiam ser mais valorizadas?

R- O ministério da educação e cultura não precisaria gastar muito para se realizar uma grande revolução nas letras. Penso que no ENEM e vestibular, por exemplo, deveria-se usar fartamente textos de escritores vivos, contemporâneos , autores de todos os estados, de todas vertentes. Poderia cria-se uma comissão (com pessoas de todos os estados, essas pessoas só participariam de um processo, a cada novo processo de escolha novas pessoas participariam da comissão) para selecionar novos autores, muitos em cada edição dessas provas. Isso também valeria para concursos públicos, todas as provas de concursos do governo federal deveriam trazer esses autores. Seria tudo em rodízio para não se criar as infames panelinhas. Nos livros didáticos também a mesma coisa, ao lado de escritores consagrados novos autores, a cada ano seriam renovados os nomes e de tempos em tempos se repetiram os nomes que conseguiram de alguma maneira se firmarem na cena literária, mas não tenho ilusões, ainda não atingimos um grau de civilidade desejado no qual um autor que , por exemplo, fosse voz antagonista ao governo tivesse sem problemas sua obra escolhida em um processo desses...Seria um começo, deve-se começar de alguma maneira.Professores e professoras também podem começar o processo de divulgação de novos autores, o governo pode reduzir por uns dez anos os impostos do livro impresso, cobrar menos impostos de pequenas editoras.




Quais os livros que já publicou e se existem livros no forno, prontos para sair?
R- Foram os seguintes: Até que a eternidade nos uma , O evangelho do mal , Os deuses não são socialista, Uma canção para Renata Maria,  Dias delicados, Rua 5, Anfetaminas e arco-íris, Urbem Angeli, Serenidade das Orquídeas, Biografia de Zelina Santana e mais duas obras em parceria com dois escritores da Bahia, Jorge Boris e Herculano Neto, respectivamente , Sob Prescrição e Mais uma dose. Não sei se vou editar mais livros, aos quase 42 anos de idade meu ânimo já não é o mesmo, o pão precede  poesia.



Você na Internet?
Página do Facebook – https://www.facebook.com/ediney.santana
Instagram – não tenho
Twitter – não tenho
You Tube – https://www.youtube.com/channel/UCvEe8m2t-bAgOXIcSrFDO2Q
Site – http://poesiaeguerra.blogspot.com.br/
Whats App – não tenho

Alguma coisa ficou pendente que gostaria de falar?

R-fico grato pela lembrança, que seja-nos leve o caminhar por este nosso Brasil...Paz luz e chá de cidreira .


Adquira os Trabalhos do autor entrando em contato com ele nos endereços da internet.

Anand Rao

Editor do Cultura Alternativa

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Poesia e Punhal

Livros de poemas de Ediney Santana
Pequenos poemas para certas angústias cotidianas. A verdade é que não consigo ficar indiferente a esse lixo político que tomou conta do nosso país, é preciso atacá-lo, mesmo que seja de uma maneira simples e utópica como através de poemas escritos em apenas um mês no meu apartamento na Rua 5 em Brasília.
Os organismos criminosos que sitiaram a política brasileira tem levado a morte milhares de pessoas, seja pela violência urbana e rural, pelo empobrecimento intelectual forjado na degradação do sistema público de ensino ou pela destruição do sistema público de saúde. A morte precoce tem sido o horizonte para milhares de brasileiros reféns de um Estado predador e assassino.
Não é possível ser livre e ser filiado a qualquer partido ao mesmo tempo, não se combate estruturas podres fazendo parte delas. Proliferam no país movimentos sociais e artísticos chamados “chapa branca”, ou seja, os que são controlados ou emprestam suas vozes aos sistemas políticos parasitas. Sei que declarar-se publicamente contra toda essa estrutura é praticamente morrer para qualquer ação ou movimento cultural, mesmo que seja uma feira literária em uma escola, mas e daí? Nenhum sistema político é inquestionável ou isento de falhas, nenhuma visão de mundo seja esquerda ou direita é modelo perfeito de ação política. Democracia é o direito de duvidar, questionar, apontar contradições e quem nega isso afirma sua condição déspota e descrença em um mundo no qual mais que direita ou esquerda tenhamos a liberdade intelectual de escolher nossos caminhos, nossas crenças ou negação delas, viver em democracia não é servir-se do país, é servir ao país.
Você tem o direito de discordar das minhas posições, mas não tem direito de querer calar minha voz e impor a sua. Não sou de direita ou esquerda, nada disso me comove ou me toca, mas você tem o direito de empunhar a bandeira que bem desejar, só não esqueça: sua bandeira não é a única, não universalize seus sonhos fomentando pesadelos em mim.
Para mim esquerda ou direita são partes dos mesmos organismos, todos em algum momento usam da estrutura do Estado para fortificarem suas próprias estruturas de poder. Política partidária no Brasil é sinônimo de morte e crime. Sei da importância da política, mas nada que temos no momento se parece com política, é lamentável que legendas políticas aqui sejam searas de mercadores da barbaria, do medo e da desolação social.
Rua 5 é o único livro de poemas meu no qual todas as poesias foram escritas pensando nas relações do poder político e a sociedade, não é um livro de negação política, é um livro de negação dessa política déspota e fascista que cotidianamente nos leva ao inferno de viver em um país que tem tudo para neste exato momento ser grande e maravilhoso, mas é mantido artificialmente na mesquinharia social.
Rua 5 é um livro de poemas, não um tratado sociológico ou coisa parecida, como poemas é arte, não tem resposta alguma para questão alguma. Há provocações, acidez poética e meu desejo de viver em lugar digno da sua grandeza enquanto terra, mar e céu.
Ediney Santana

Brasília, 28 de dezembro de 2015

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Invisivelmente produtivo

Ediney Santana

O ato de escrever?

R- Tenho longos diálogos comigo mesmo, sempre fui assim. Desde sempre estive ligado com meus diálogos internos, quando criança escrevia diários e ainda escrevo, meu ato de escrever é minha carta de intenções dirigida primeiro ao que sou, me afirmo assim como pessoa, depois penso no leitor, não ofereço ao leitor um diário de minha vida, mas as leituras que faço da vida, das nossas relações sociais, meu ato de escrever reflete a leitura possível do mundo, evidentemente não é a única.

Retorno do que escreve?
Não tenho leitores, não há neste momento pessoa alguma que pense  ou esteja lendo  algum poema ou conto escrito por mim, creio que só quando uma obra é lida seu autor pode-se dizer escritor, pensando assim não me vejo como escritor. Deixo meus livros em pontos de ônibus, bancos de praça, enfim em qualquer, mas nunca tiver resposta. Talvez seja um tipo de escritor diferente, o tipo que não se alimenta de leitores, mas da palavra que escreve, não tenho problemas com isso, continuo escrevendo, importa deixar aqui algo que embora invisível seja positivo, a invisibilidade ativa não pode ser tirada de mim.
Por outro lado a ideia da celebridade, do rei de Midas ainda não foi vencida, muitas pessoas só enxergam algo quando esse rei de Midas toca e diz: é ouro, esperava que neste século, com a internet o poder político e empresarial de determinar quem tem direito a voz ou não fosse se não vencido ao menos questionado.  Mas isso não me desmotiva, importante é escrever, se seu invisível sou também produtivo.

Fale mais sobre a invisibilidade?

Há um mito que só talento basta para que alguém tenha voz, consiga ser ouvido, a ideia tosca da meritocracia. Isso é um mito, só o talento não basta, muitas pessoas têm suas vozes silenciadas, a depender o que se pensa não haverá visibilidade para ser ouvido. Cada geração produz seus invisíveis, o que defendo é que não devemos nos calar diante essa invisibilidade, não enxergar como recompensa ao que fazemos o aplauso da platéia, antes de quaisquer coisas deve-se ter prazer com o que produzimos, eu tenho prazer em escrever livros, claro, se reconhecido deve ser bom, ter seus livros comentados também, mas antes disso tudo tenho prazer com esse essencial que sai de mim e se materializa em cada palavra que escrevo.

Sua turma?
Tenho amigos, alguns, bem poucos. Mas não faço parte de movimento artístico algum. Já cometi o erro de militância partidária, cometer o mesmo erro na arte seria estupidez ao quadrado. Há uma ideia ébria no ar, certa civilidade da conveniência, tudo para disfarçar a soberba e vaidade, não sei se serei lembrado pela minha geração , isso também não me interessa, compro muitos livros de autores contemporâneos, estou atento as novas publicações, como leitor não vivo ilhado, como autor e pessoa cada vez mais estou recluso, gosto desses distanciamento, de olhar tudo como um cartão postal, desejando felicidades para todos.

Vídeos poemas?

Adoro fazer vídeos poemas, recitar meus versos e deixar lá no youtube, é um dos meus prazeres, é minha maneira de dizer para mim mesmo e para o mundo que estou vivo, mesmo que esse meu mundo seja dez visualizações.
Sou inquieto, às vezes ao andar pelas ruas falo em voz alta, as inquietações saem livres em diálogos entre esse eu sereno e o outro eu  aflito. Então os vídeos poemas é tudo isso somado, vários tons de uma mesma canção.

Brasil de hoje?

Sectarista, esquizofrênico e intolerante. Pode-se dizer que tudo isso é eco do passado, mas hoje esse eco traz todo um teor de perversidade impensável para mim que fui da geração ressaca, a que nasceu na possível utopia de um país livre da ditadura que seria realmente democrático, mas mergulhou na ditadura do mau gosto, das relações ácidas, da intolerância e xenofobia.
Penso que só existe um partido no Brasil: intolerante. Grupos religiosos cretinos, movimentos sociais cretinos, direita e esquerda cretinas. A violência intelectual no Brasil é tão nociva quanto à física, a violência intelectual é a estrategista moral e ética da violência que nos apavora pelas ruas, os responsáveis por isso são todos esses agentes que inundam redes sócias de ódio e demência política e religiosa, que estão nos partidos, templos e todo dito de organização que pregam o ódio como argumento intelectual.
Há saída para isso tudo?

Sempre há, não só uma saída, mas varias, é necessário múltiplas visões políticas, culturais e religiosas. Quanto mais o debate ser entre dois grupos esquerda ou direita mais eles se fortalecem e continuam hegemônicos. Quem determinou que devemos pensar apenas em duas alternativas? Nada é simplista assim, mas eles estão corroendo todas nossas alternativas, nas universidades, por exemplo, há uma paralisia, em especial, nos cursos de humanas ou licenciatura, quase nada se produz, tudo é requentado, alunos supostamente bem esclarecidos se agarram em meia dúzia de conceitos e não se permitem mais ao contraditório e isso é para qualquer posição ideológica que tenham . A ideia de alguém ainda ter posição ideológica é por si só trágica.
Ainda há pessoas que acreditam que o socialismo é o caminho, quando já foi rezada a missa de 7º dia do capitalismo.

Niilista, cético?

Não desisto das utopias positivas, não sou cético, mas não vou fundar as bases das minhas utopias em visões de mundo que embora se acreditem pós- modernas ou qualquer outro adjetivo da moda, para mim não diferem das velhas carcaças intelectuais de sempre. O discurso artístico no Brasil, com alguma exceção se tornou um discurso da mendicância por verbas pública, movimentos sociais se algemaram a governos, a esquerda não tem capital ético para apontar minhas contradições e a direita é especializada em sexo oral no poder, o pensamento de direita no Brasil se resume há algumas moedas jogadas em suas caras carrancudas e ética cotada na bolsa de valores da intolerância e do ódio.

Projetos?

Estou terminando um novo romance, “Não olhe nos olhos”, uma história que se passa em Brasília. A ideia é uma trilogia de histórias em que cidades sejam protagonistas.
O primeiro romance foi Urbem Angeli, toda narrativa se passa nessa cidade Urbem Angeli. Agora “Não olhe nos olhos”. E continuar com meus vídeo.

Palavras finais:

Muito obrigado, fazer da invisibilidade algo produtivo, amor sem servilismo e alegria sincera para todos corações.  


Entrevista concedida   a Grabriely Del Fabry
Brasília, 12 de junho de 2015


                                                                                                               


 






quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Serenidade das Orquídeas


A serenidade

Os contos que compõe “A serenidade das Orquídeas” não são inéditos, foram publicados originalmente no meu blog “Avida reinventada e outras histórias” entre 2006 e 2010. Escolhi os contos que mais gosto para compor este livro, pequenas histórias que mostram o insólito das nossas relações cotidianas.
Em cada conto sentimentos de um mundo que acontece por dentro e nos assusta por fora. Gosto da ideia de escrever pela ordem do caos, da possibilidade de ampliar pequenos delírios até ao absurdo que choca, mas sem perder com a realidade a ficção de existir.
Este livro também faz parte do meu esforço pessoal para editar meus livros e levá-los ao maior número possível de leitores, deixá-los em bibliotecas públicas e particulares para que no futuro aconteça, quem sabe,à alegria de encontrar leitores, afinal é essa a finalidade de cada livro, encontrar leitores e assim possa existir como livro, como arte.
Ediney Santana
Brasília, 28 de novembro de 2014



terça-feira, 6 de janeiro de 2015

1ª Entrevista- Literatura Brasileira


Universidade Estadual de Feira de Santana
Departamento de Letras e Artes
Campus Avançado de Santo Amaro-Bahia







Linguagem da Arte
Poesia



Aline Mota
Itana Fonseca
Luana Veiga
Railda Cruz
Vilma  Barbosa




Santo Amaro
Maio de 2003

O POETA PELO POETA


Ediney Santana, de origem sertaneja, se descobre poeta no recôncavo baiano. Como todo poeta, tem na solidão a companhia perfeita para seus momentos de inspiração, de encontro consigo mesmo “hoje estou ausente de mim...”. Existencialista? Por que não?
Nascido em 14/03/1974, na cidade de Mundo Novo-Ba, filho de Zelina Santana e Edivaldo J. da Silva. Em virtude do trabalho de seu pai que foi transferido do distrito de Capivara – Itaberaba/BA, para Santo Amaro, veio morar nessa cidade e no prédio onde funcionou a antiga estação ferroviária e depois a Direc-31.
Estamos neste momento no Campus Avançado de Santo Amaro/UEFES, nos concedeu entrevista:
1º momento – 30/04/2003
Aline – Por que razão você começou a escrever?
Ediney Santana – Eu não lembro porque já tem muito tempo, mas as coisas mais antigas que tenho datam de quando eu tinha doze anos mais ou menos.
Aline – Você falou que começou a escrever com doze anos, mas quando começou a sua escrita... Você se descobriu poeta ou sentiu uma necessidade ou de repente você escrevia e mais tarde se deu conta de que aquilo era uma Poesia, ou apenas escrevia e não identificava o que aquilo era?
Ediney Santana – Olha só, digamos que eu tive uma infância pelo avesso, não gostava muito de fazer os que as pessoas da minha idade faziam: jogar bola, etc. Não gostava de andar com os meninos da minha idade, gostava de ficar lendo revistinhas, lia muito a bíblia e sentia vontade de questionar aquelas coisas, e como não gostava de andar com as pessoas de minha idade, tinha tendência a conversar com pessoas mais velhas, então chegavam novidades. Se por um lado para os garotos lá da rua eu era esquisito, essas pessoas mais velhas já me viam com outros olhos. A partir disso fui jogado de lado, então comecei a ficar ‘na minha’, a rabiscar no caderno, escrever, na escola me aproximava dos professores de português e começava a fazer versos, mas não com aquela coisa de Poesia. A palavra Poesia não tinha aparecido na minha vida. Talvez por uma infância solidária eu tenha chegado nas letras.
 Morava perto de uma banquinha de revista e mais tarde passei a vender jornal e isso possibilitou minha aproximação com a Literatura porque por aí descobri as partes culturais do jornal, eu não entendia muito bem, mas fiquei aficionado a ler, ler, ler, sempre com aquela interrogação e escrevia meus versos, textos. Era uma coisa que questionamento mesmo.
Aline – Você diz “não quero ser exemplo, não quero transformar, não quero ser lido”. O que é o processo da criação literária para você? O que significa ser poeta, ser o poeta Ediney Santana?
Ediney Santana – Para mim a Literatura na Poesia tem uma função clara, aliás, duas funções: marcar minha época e dizer as coisas que penso desse tempo de hoje, nosso tempo, e o outro é... Digamos que embora eu tenha dito que não quero ser lido, não é nada disso, porque penso que minha função não é que as pessoas leiam e passem a escrever igual, nada disso. Mas que elas se tornem senhoras e senhores de si, que vão procurando seu caminho, vendo que há possibilidades. Se um sujeito escreve lá seus versinhos em sua infância e depois consegue publicar, outras pessoas vão escrever não aquilo, mas digamos ter ânimo para escrever, ir em frente, para questionar. Vivenciar Poesia para mim é quebrar essas barreiras, é mostrar que qualquer pessoa pode publicar um livro, escrever um poema, um romance, desde que ela não se prenda, não se feche. Sabe aquela ideia romântica de que sou o máximo e ninguém mais presta? Então talvez por isso eu tenha escrito essas questões... De não ter barreiras, não ter raça, uma poesia que aponte para um caminho de liberdade.
Aline – Por que o título “Até que a eternidade nos uma”?
Ediney Santana – Creio que esteja um pouco brigado com a minha época. Se você prestar atenção são poesias negativas. Não vai ter texto para a pessoa ler e se emocionar e mandar para os amigos; não vejo com bons olhos essa época. Desde quando eu estou brigado com a minha época, nada mais sugestivo do que “Até que a eternidade nos uma”, ou seja, no momento não creio que a possibilidade de a coisa ser bem aceita porque aquela concepção de beleza, do belo da Arte eu não coloquei na poesia do livro, são versos ácidos, embora aparentemente alguns leves, mas é um descontentamento com essa época, um livro de negatividades, não é de afirmações nem de celebrações, é ‘olha, não to muito satisfeito... ’.
Aline – Nos dois poemas “Silêncio” e “Até que a eternidade nos uma” aparece uma referência à morte refletindo uma ideia de sofrimento, dor. Você sofreu alguma perda que foi significante para sua poesia?
Ediney Santana – Essa questão de morte não é física, que a pessoa deixa de existir como no romantismo, é a morte ideológica, poética, a morte das relações mais sérias, ou seja, um ambiente onde nada é sério, não há uma ‘verdade’ que você possa se apegar muito. A morte da beleza e o surgimento do grotesco. A morte social de cada indivíduo. Cada um de nós tem que ficar o tempo todo fingindo, interpretando, assumindo posturas que não são nossas. Isso de certa forma é uma morte da pessoa, ter que desviar caminhos para chegar a algum lugar, ter que esconder sentimentos, pensamentos. Morte no sentido social, amoroso, sentimental, político. O engraçado da poesia é que ela se nutre dos seus dramas, não das suas conquistas, sim das suas derrotas, questionamentos.
Aline – Sabemos que você além de ser poeta tem uma vida política ativa, tem uma tendência a lutar pelas causas sociais. Qual é a diferença que existe (se existe) entre o poeta Ediney e o homem Ediney?
Ediney Santana – Sou mais otimista estando aqui conversando do que escrevendo. Sou positivo o tempo todo, tanto que me envolvo em questões políticas e se você se envolve acredita que pode mudar, mas quando escrevo vem à tona a decepção disso, a parte da tristeza mesmo, de lutar, lutar, querer e não chegar a lugar nenhum, voltar para casa apagar a luz e ver que daquilo foi tudo em vão. Talvez no livro eu dê mais vazão às angústias que disfarço no dia a dia, mas também eu não sou uma pessoa muito alegre. Então a diferença entre um e outro é bem fraquinha.
Aline – Queríamos saber se você enquanto poeta, se você brinca com as palavras? Acontece uma brincadeira consciente ou inconsciente?
Ediney Santana – É consciente, adoro brincar com palavras, adoro metáforas. Do título até o último poema é cheio de metáforas. Adoro usar trocadilhos, pegar uma palavra comum do dia a dia e colocá-la num contexto onde ela assuma outra conotação, às vezes com um pouquinho de acidez, com humor, mas aquele humor terrível. Então é proposital.
Aline – Você diz: “estamos no vácuo, no nada, tudo está errado, tudo é ímpar. Deus é o vazio, o nada. O eterno vem depois da não existência. O eterno é o dia depois de ontem.” Você se considera um poeta do absurdo? Do absurdo de existir, de ser, de não ser, de entender-se poeira desvairada a mercê do desespero e da dor?
Ediney Santana –Constantemente ouço as pessoas dizerem que sou um cara contraditório, se contradição fosse absurdo creio que seja verdade. Agora absurdo também não é aquela coisa ilógica... Esse poema “Matemático do vazio” eu fiz para um ex-professor meu, Panajotes. Mas há algumas coisas absurdas. De primeira vista uma pessoa religiosa vai dizer assim “poxa! Deus é o vazio?” Mas, para mim que sou ateu é estar negando a existência, Deus é o vazio. É uma ideia absurda para dizer que não acredito no absurdo da religião.
Aline – Como você enxerga a questão das influências que sofremos no campo literário? Até que ponto isso atrapalha a criação?
Ediney Santana – Penso que todas as influências são positivas, penso que negativo mesmo não são as influências literárias, no caso de nós que somos estudantes, negativa é a presença da Universidade nisso tudo. A Universidade tende a manter a criatividade do sujeito, tende a impor. Quando alguém começa a escrever há determinados seguimentos na Universidade que forçam você a dizem amém para outros escritores. Aí é uma coisa absurda. Ele nega ao aluno, principalmente de letras, ele floresce, buscar o próprio caminho. Se observarmos todos os grandes poetas e escritores, algum dia levantaram a voz contra algo, contra alguém e por isso acabaram se afirmando. Claro que com grande genialidade poética também. Se você reparar as aulas de Literatura nas Universidades são as que os alunos mais odeiam e o ódio nesse caso advém da má condução da Universidade nisso, que trata a Literatura como uma coisa muito séria. Literatura é Arte, acima de tudo é Arte, não é matemática nem linguística. Está ligado ao sentimento de cada pessoa. Claro que há coisas a seguir quando estudamos, mas não deveria perder isso de Arte. O professor sugere um livro de Machado de Assis, receita-o como um medicamento, como se fosse observar códigos matemáticos, a pessoa toma pavor, nunca mais vai ler e vai dizer que é chato, vai perder uma grande oportunidade de conhecer aquele escritor. Então a Universidade ‘peca’, pois se tomou um lugar de heróis da cultura de pé de barro.
Querem comprovar o que falo? Peguem os períodos da Universidade, é insuportável, duvido que alguém consiga chegar na quinta página, tratam a Arte, coisa tão bela, que vem de forma tão simples, como se fosse um compêndio que não vai levar para lugar nenhum. Quando estudei fui um crítico mortal, mordaz da Universidade. Várias vezes briguei com professores porque esta postura acaba afastando as pessoas da leitura. Ruins são essas influências negativas que o ambiente universitário tenta encurtar na cabeça. Para mim ser culto é estar atento a todas as nuanças e variações da vida, do dia a dia. Estar vivo.
Aline – Você cursou Letras Vernáculas na UEFS e o que você pôde tirar de proveito para suas poesias?
Ediney Santana – Foi proveitoso porque tive acesso a coisas não muito fáceis de achar no cotidiano, acesso a alguns livros, alguns professores que fizeram total diferença. Infelizmente os professores de segundo grau não tem muito ânimo para ensinar, talvez por cansaço ou qualquer outra coisa. Então tive professores aqui que quebraram a regra disso que falei a pouco, isso foram alguns, a outra parte foram pessoas bem humanizadas que incentivaram. Se vocês perceberem esse livro não foi do Departamento de Letras, ele foi projeto do professor Anchieta Nery, que não mexeu em uma vírgula. Se fosse do outro lado, tudo mudaria, do título aos pontos parágrafos. Então foi proveitoso porque pude conhecer outra face da vida, das pessoas e isso me deu mais maturidade.
Aline – Notamos uma preocupação constante com o aspecto político das teias sociais em seus versos. Uma preocupação humanista, muito forte, essa indignação tem raízes em uma vivência ou é uma propensa natural a esses assuntos?
Ediney Santana – Tenho militância política há muitos anos, faço parte do Partido Comunista do Brasil, do qual sou secretário político aqui em Santo Amaro, antes disso militei no Movimento Estudantil. Por ter vindo do sertão, e ter percebido como a política pode ser perversa contra as pessoas, quanto um dedo de mau político pode desgraçar a vida de dezenas e dezenas de pessoas e por lá em casa meus pais sempre discutirem essas questões... Minhas viagens pelo sertão vendo as pessoas morrerem de fome, sempre teve uma tendência forte para mim, fora o partido e obviamente procuro registrar poeticamente e nos meus movimentos e crônicas como uma denúncia, mas tendo cuidado de não transformar a Poesia em jornalismo, para que ela não tenha data de validade. Ou seja, se você prestar atenção, os versos retratam dramas humanos mais que políticos de qualquer época, de qualquer povo.
Aline – Você possui um lirismo sutil “Minha flor de dores reais”, “enaltece teu desejo de mim, negando o que tem em ti perpetuado está”. Você faz referência a várias pessoas em seu livro “Até que a eternidade nos uma”, mas notamos uma pessoa em especial que implicitamente aparece em muitos poemas, essa pessoa é Mara Wellás. Gostaríamos de saber quem é Mara Wellás.
Ediney Santana – Mara Wellás é uma menina de vinte e cinco anos que conheço há dez anos que está comigo, frequentava o chafariz comigo... Inicialmente éramos inimigos, depois ficamos amigos, depois nos apaixonamos, uns sete anos mais ou menos e recentemente estamos descobrindo aos poucos que estamos virando amigos de novo, mas sem guerra.
 É uma pessoa daquele tipo Inesquecível, inesquecível mesmo. Em todas as coisas eu tento marcar não só ela, mas pessoas legais, que somam. A Mara talvez tenha sido a primeira pessoa que tenha prestado atenção em mim, entendido os meus lanches, até então para os meus poucos amigos eu era só um sujeito deprimido, inquieto, esquisito, que gostava de ficar em casa lendo. Mara não, ela começou a ver a sutiliza das coisas, começou a ter um contato sério e não sério comigo. Começou a ver que eu não era um cara ‘só isso’, que eu tinha mais. Então eu a respeito e amo muito, por ela ter prestado atenção lá no fundo do meu coração... Por isso tento sempre tê-la por perto, seja como namorada, amiga, conhecida, como tudo. Por esses aspectos, é uma pessoa que marcou porque foi a primeira realmente que viu que eu não era só aquele sujeito ‘deprê’.
Aline – Por vezes você se mostra saudoso. Do que você tem saudade?
Ediney Santana – De muita coisa, mas eu tenho uma necessidade gritante de futuro, tudo que faço é nesse sentido. Quando eu tinha dez anos, ficava doido para ter quinze, quando tinha quinze ficava doido para ter dezoito e agora que tenho vinte e nove (risos) fico doido para ver se chego do futuro, gosto de me projetar. Mas também tenho saudade das coisas que não vivi, saudade da terra onde nasci.
Aline – Em que sentido você diz que seus versos são negativos?
Ediney Santana – De não serem poemas em sua maioria que indiquem caminhos, positivo é aquilo que lhe dá solução. Nesse caso não acontece. O livro apenas mostra pontos de vista, apenas pontos de vista. Agora em cima disso a pessoa pode ler e teorizar milhões de coisas...
Aline – Você fala como se qualquer coisa que trouxesse satisfação na vida fosse só ilusão, as únicas coisas reais seriam a tristeza e a melancolia?
Ediney Santana – Não é que pense que tudo tem um lado ruim, mas ao observarmos a lei natural das coisas tudo tem um fim. Como sou ateu acredito que tudo tem começo, meio e fim. Não acredito em amor eterno, não acredito em amizade eterna, não acredito que nada seja eterno. Talvez isso passe um lado melancólico, se você é religiosa, quando esgotam as frações humanas de respostas para suas angústias você pensa em Deus, para um sujeito que não acredita, quando esgotam as potencialidades, é ele mesmo. Sou eu e eu mesmo, ou me resolvo ou não me resolvo.
Aline – Então de certa forma o poeta em si seria um individualista?
Ediney Santana – Creio que não, materialista. Sou eu e meu mundo. Mas meu mundo é aqui na Terra, meu mundo é você, ela... Agora não repreendo essas questões religiosas de maneira alguma, posso discutir religião mas não discuto fé, fé você tem ou não tem. Mas eu sou materialista, tanto que tenho a preocupação social e é nessa parte que minha sensibilidade ecoa e nessas horas é impossível, tenho que concordar, não se sentir só, é um momento em que voz humana não vai resolver.

2º momento – 21/05/2003
Aline – Você já se sentiu sozinho na vida?
Ediney Santana – Bem, ahn... Falando seriamente, acredito piamente que todas as pessoas estão sempre, sempre, sempre sozinhas, e como eu me incluo nisso, desde a minha infância que a melhor companheira é a solidão.
Aline – Reflita um pouco e diga-nos qual a coisa mais importante do mundo para o poeta e para o homem Ediney Santana.
Ediney Santana – Para mim o mais importante não e a minha mãe, não sou eu, não são vocês, não é a professora Nádia, não é meu diploma de formatura em Letras. Para mim a coisa mais importante que tenho no mundo é o que eu não tenho ainda, é o dia de amanha.
Aline – Como pessoa o que você desejaria alcançar?
Ediney Santana – Materialmente, um emprego que possibilitasse meus livros, meus discos, um quartinho, sem cozinha. Agora, espiritualmente, filosoficamente, alguns grãozinhos de felicidade já bastariam.
Aline – Então você não é feliz? O que é felicidade para você?
Ediney Santana – Também não sei o que é. Mas não tenho, já que ela está ligada a... Felicidade as pessoas colocam num patamar de bem-estar, aceitação, nada dessas coisas eu tenho. Você acha que um passarinho que canta numa gaiola com as asas batendo é feliz? (Penso que a mesma coisa sou eu) Ele quer ir embora dali.
Aline – Quais foram as maiores emoções que você já teve?
Ediney Santana – Não sei porquê, mas tenho a estranha sensação que a morte gosta de ficar sempre rodando perto de mim. Desde a minha infância, dos 9 aos 29, perdi avós, pai, tios, primos, mais estranhamente comecei a lidar com isso de uma forma, não “deprê”, criei uma relação de afeição com esses meus mortos, não que eu acredite em alma, além, nada disso... Mas de um tempo para cá, eu tenho me emocionado a pensar nessa gente e escrever para essa gente, como se eles estivessem no meu quarto, falando comigo como se nunca estivessem ido embora. Pode parecer esquisito, minhas grandes relações ultimamente, não é ter contato com os vivos, é ficar relembrando meus mortos. De certa maneira, a fazer com que eles voltem à vida junto comigo lá nas minhas noites, sozinho, no meu quartinho. Não me emociono com coisas materiais, com livros, estudo, dinheiro; emociono-me com isso, gosto de ver as pessoas sorrindo ou chorando demais, é quando estão em contato com elas mesmas.
Aline – Então esses mortos são importantes para você?
Ediney Santana – São, eles me dão a dimensão real da vida, quase todos morreram jovens ou doentes Isso me alerta, mostra que nada desse mundo real vale a pena, isso não quer dizer que as pessoas devam sair por aí matando, mas eles me dão a dimensão real da vida, e a dimensão real da vida é a morte.
Aline – Linguagem, ponte ou abismo?
Ediney Santana – Ponte, foi o meu livro que trouxe vocês aqui, foi o meu livro que me aproximou da professora Nádia, então é ponte para outras coisas. Vocês podem ficar desapontadas ou não, podem nunca sequer contar comigo nessa ponte, mas ao mesmo tempo podem buscar outras coisas. A pessoa pode levar o livro e não gostar de nada, mas ver o nome de Antoine de Saint-Exupèry e querer saber quem é o escritor mesmo que não goste da referida poesia que fiz para o autor.
Aline – Você nos diz que ama e ao mesmo tempo afirma não acreditar em perenidades, ao passo que o título do seu primeiro livro é “Até que a eternidade nos uma”. O que é o amor e o eterno para você?
Ediney Santana – Esse instante aqui, agora tem amor maior? Não tem, há uma confusão muito louco entre o amor e a afeição. Sentimos afeição pelo filho, pela namorada, pelo neto, professor, mas amor está num instante maior, está perto da amizade, e a própria amizade é maior que o amor, é esse convívio aqui e agora. O eterno a que me refiro não sou eu. Mas as ideias ficam, as ideias perpassam, de certa forma todo mundo quer ser eterno – um analfabeto tem filhos, eu escrevo livros.
Aline – Você faz citação a outros escritores em seu livro. Qual o motivo dessas escolhas?
Ediney Santana – São pessoas que me tocaram em determinado momento, pessoas que me acompanharam, sempre estão lá.
Aline – Quando se escreve um poema?
Ediney Santana – Quando se escreve um poema... Eu não acredito em inspiração de um deus, um anjo que sopre no ouvido “vai Ediney, faz um versinho pra mim” (risos). É lutar com palavras, labutar todos os dias com meu papel e minha caneta. É estar “juntando” palavras.
Aline – De tantas possibilidades na Arte em meio a outras possibilidades de expressão, por que a Poesia?
Ediney Santana – Bom, tem o trabalho com música. Quem conhece e ouve, diz que não presta (risos). Então o que acontece? O que acontece com música é o que eu faço com poesia, não me preocupo em fazer coisas que me agradem aos ouvidos e aos olhos, escrevo minhas histórias... Penso que a Literatura é a Arte sublime, nenhuma outra forma de expressão é tão sublime quanto a Literatura. A Literatura é o máster de todas as Artes, onde tudo começa, onde tudo termina.
Aline – Mas podia ser Prosa. E por que Poesia?
Ediney Santana – Mas eu escrevo Prova, primeiro eu comecei com Poesia. Bom, só que...
Aline – Tudo bem, mas por que você escreve Poesia?
Ediney Santana – Porque Poesia é a melhor forma de se esconder, já que eu não preciso me expor na Poesia. Na Prosa eu tenho que estar mais presente na vida das pessoas (risos).
Aline – Do que você se esconde?
Ediney Santana – Me escondo de você, do dia, da noite. Porque não tenho verdade nenhuma, porque sou tímido, porque sou feio...
Aline – O que é belo para você?
Ediney Santana – (risos) é qualquer coisa, menos a minha pessoa. Gostaria de ir para o sertão, rolando no meio do mato, escrevendo de longe sem ninguém me olhar. Me escondo dessas coisas. Agora, falando sério, não sei o que é o belo, pelo lado filosófico da coisa, belo é o que agrada o espírito. E se agrada o espírito, não pode ser pintado, poetizado, nem escrito, demonstrado, melhorado, piorado. Existe simplesmente o belo.
Aline – Gostaríamos de saber a razão pela qual você nega o lirismo de seus versos, nega o romantismo como uma possível influência.
Ediney Santana – Um dia um professor falou que eu estava atrasado trezentos anos e minhas poesias pareciam uma Poesia de um poeta romântico. Isso de certa forma me deixou traumatizado. É isso que faz meu ser rejeitado pelas pessoas que leem, eu tenho um teor romântico muito grande. Então não é que negue, é que isso me deixa triste, não poder me comunicar com outras pessoas pela coisa que mais gosto que é a Literatura (risos).
Aline – Fale sobre sua música?
Ediney Santana – Porque começou com música, e o que aconteceu é o que acontece com os versos, não é aquela coisa de as pessoas ouvirem e gostarem, é simplesmente música, música pela música, gosto de ver meus versos cantados. É simplesmente música, como os meus versos estão virando simplesmente versos.


UM OUTRO OLHAR

A linguagem literária do poeta Ediney Santana interroga o mundo sobre sua realidade, sob sua luz, ela assume a nostalgia, a náusea de existir, o ilogismo das relações naturais e humanas, ao mesmo tempo que não apresenta solução e, ao expressar a sensação de perda diante do desaparecimento de absolutismos, de verdades, expõe uma época, uma época que traz consigo uma nova direção para o ser, no sentido de negar toda uma realidade preexistente. Seus versos beiram da esperança (“a revolução é um estado permanente na natureza”) ao desespero (“sorri, com flores nos dentes cariados de inverdades, produção angelical do terror”).
“Tudo está errado tudo é ímpar”, o poeta questiona os conceitos que lhe foram impostos, os fenômenos captados por seus sentidos e o drama da existência que explode e encontram um abismo onde acaba negando a natureza humana “estamos no vácuo, no nada”. O desaparecimento do divino sob o ponto de vista do ‘supremo’, do hierárquico tirou o sentido à vida e às coisas, mas como é necessário viver cria-se uma ‘moral’ da solidariedade humana (“é o olhar que em mim é todos nós”) e até a descoberta do social, essa descoberta da coletividade é dolorosa, notamos isso em “Pessoa X Jesus”:
“-Amai teu próximo como a ti mesmo”
- Será que vale a pena mesmo quando a alma não é pequena?”
“Profeta é consciência individual que percebe e traduz a consciência do povo” (autor desconhecido). Em sua poética o ponto de partida é a fragilidade humana numa perspectiva emotiva (uso da lírica), seu discurso se define entre a singularidade e a universidade, assumindo sua incompletude por conceber intervalos determinados pelo social, alude a outras realidades e outros textos (citação de escritores), é então processo de significação e seu tipo é um funcionamento discursivo que se cristaliza historicamente dada a dinâmica de produção artística.
“A dimensão real da vida é a morte”, numa tangência existencialista, a morte converte-se em inutilidade, em absurdo da criança, mas não e apenas uma poética do desespero, surgida das circunstâncias de um mundo em decomposição, é uma poética que nasce do conflito, como vemos em “Sublime”.
“Quando não nos percebemos parte desse sublime mundo
Não pela força da morte, mas pelas desigualdades
Impostas à porção de Deus em nós (vida)
Ah! Uma explosão de angústia se apodera da alma,
Nesse momento nascem revoluções
E as borboletas saem do casulo.”
Todas as discussões nesse fazer poético são discussões do Homem em busca da Liberdade essencial para comunicar-se com o mundo e consigo mesmo, já que para o autor Ela é o próprio homem: “eu senhor no meu caminho/ tradução de mim mesmo”. A atividade poética é uma violência voluntária, do autor para o autor, suicídio absoluto do que até então era íntimo e obscuro. “A linguagem é uma condição da existência do homem... e é poesia em estado natural”, já dizia Octávio Paz. Linguagem, sempre ponte para esse poeta, ponte para a libertação, ponte para comunicar os desejos – “vontade de ver o mundo/ vontade de viver o mundo”, lâmina mordaz – “cada verso um suicídio”, ponte para o inominado – “a vida é só uma metáfora”, ponte para as denúncias e para o notar-se linguagem – “na caatinga vive um triste livro, o livro de ser real”, o poeta que é linguagem, “a Literatura é o máster de todas as Artes, onde tudo começa, onde tudo termina” – “meus versos, minha tradução”. E é assim que percebemos a grande sensibilidade humana que é o poeta e o homem Ediney Santana.

CONCLUSÃO

Depois dos estudos realizados e as conversas com o poeta Ediney Santana, podemos ratificar que a poesia é uma forma de expressão única, subjetiva, espiritual e intelectiva, pois explicar o fenômeno literário é uma tentativa débil, é notável que não se pode  ter um conceito definitivo, ou mesmo quando se escreve uma poesia não existe padrão, cada escritor representa a sua arte de maneira peculiar.
Segundo Ediney, não existe hora nem lugar para se escrever, bem como, assim ele acredita, não existe inspiração, ele simplesmente escreve.

Desta maneira, a poesia enquanto criação, recriação de um objeto inicia-se com o poder cognitivo, inerente a cada ser humano e culmina com a capacidade de reflexão e os questionamentos do mundo e das coisas que cercam aquele que escreve.